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Inteligência artificial mira o futuro do setor industrial daqui uma década

O projeto Indústria 2027 mira o futuro do setor industrial daqui uma década, mas há projetos que vão se consolidar muito antes. O carro autômato, por exemplo, pode se tornar realidade dentro de dois anos. É nisso que aposta o diretor de tecnologia da Motora, Lucas Thom Ramos.

 Ainda na universidade, Ramos e colegas criaram a empresa e desenvolveram o veículo Icad com o qual percorreram 74 quilômetros entre Vitória e Guarapari, no Espírito Santo. Agora, com investimento da investidora Geocontrol na Motora, a tecnologia será adaptada para um BRT (Bus Rapid Transit na sigla em inglês, o transporte rápido por ônibus). "O problema maior de um carro autômato é o caos do trânsito. Em uma faixa exclusiva para BRT é completamente viável. Em dois anos, estaremos operacionais", garante. Com isso, graças à inteligência artificial do programa, uma pessoa em um centro de controle poderá operar até 10 ônibus, gerando economia e eficiência.

 A manufatura avançada é outro cluster tecnológico que é foco para a indústria. Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) conta que há plantas desenvolvidas para produzir 800 mil camisetas por dia. "Isso muda totalmente a concepção de produção. Para se fechar uma camisa polo hoje são necessários até 2,5 minutos. Há fábricas chinesas, plenamente operacionais, que produzem uma camiseta a cada 22 segundos", diz. 

Ele ressalta, contudo, que o mundo não vai virar indústria 4.0 da noite para o dia. "No ambiente industrial alemão, apenas 12% chegaram lá. Apesar de não ter um ambiente positivo, o Brasil não está mal nessa discussão", assinala. Projetos desenvolvidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) estudam plantas compactas, que operam sob demanda, diminuem desperdício e facilitam estocagem. "Isso vai viabilizar mais os pequenos e médios negócios. E não é só robótica. É integração produtiva. É o mundo conectado, real no smartphone, chegando ao ambiente fabril", afirma o presidente da Abit.

Os pesquisadores do Senai Eliel Wosniak e Renan Bonnard estão a pleno vapor, coletando dados em três empresas que estão avançadas no caminho rumo à indústria 4.0 para aplicarem o que for possível em outros setores. Eles explicam que os três projetos vão gerar aprendizado, sem investimentos em novos hardwares, apenas aproveitando sensores que já estão implantados. "Os projetos consistem no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial que vão buscar parâmetros para melhorar o processo produtivo, determinando situações para otimizar máquinas ou linhas produtivas", contam.

Um exemplo ocorre na fábrica de sucos Fischer, de Santa Catarina, que prioriza o máximo de produção no período de safra e maior desempenho na entressafra. "A indústria tem uma linha de produção de sucos de maçã bastante automatizada. Chamou o Senai para integrar novas tecnologias, com interconexão das máquinas, pela internet, para que os gestores possam ter acesso a distâcia via telefonia móvel", explica Wosniak.

Bonnard acrescenta que o caso da Fischer poderá ser replicado em outras empresas que trabalham na mesma linha. "Cruzar informação da área de negócios com questões externas, clima, vendas, compras de matéria-prima, custo de armazenagem, estoque, transporte. Tudo isso é voltado para a extração do suco, mas pode ser aplicado na indústria de tinta, petróleo e processamento de matéria", diz.

Na Embraco, outro projeto em estudo do Senai, os pesquisadores vão aproveitar que já existem sensores nas linhas de produção para apurar informações, processar dados e enxergar onde estão os problemas, as necessidades de parada. "Vamos ler a imensidão de dados gerados (big data)", resumem os especialistas. Na fábrica têxtil Audace, o objetivo é aproveitar a internet das coisas. "A máquina de corte é compartilhada em duas ou três mesas. A ideia é otimizar o equipamento remotamente para aumentar a produtividade", explicam.

Os pesquisadores destacam que os estudos ainda estão começando. "A primeira etapa é levar dados do que produzem na indústria de 3.0, com sensores, aplicar algoritmos inteligentes para encontrar a melhor correlação entre os vários atributos e chegar à 4.0", afirma Bonnard. "Temos condições de evoluir muito em 10 anos para atingir o horizonte da Indústria 2027", garante Wosniak.

Os setores industriais que mais investem em inovação tecnológica são os que estão inseridos no mercado global, capitaneados pelas grandes empresas com muito capital e parques modernos. Porém, mesmo que o Brasil tenha largado com atraso para chegar na quarta revolução industrial, há exemplos pioneiros de companhias de todos os tamanhos e segmentos.

André Fonseca, diretor-executivo e fundador da Simbios, uma microempresa de biotecnologia para diagnóstico molecular e análise de DNA, conta que teve seu trabalho reconhecido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) pelo potencial inovador. "Nunca deixei de buscar fomento para investir em tecnologia. Temos relações boas com centros de pesquisa, com a academia, s Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Estamos sempre buscando suporte porque nossa empresa, na origem, já é tecnológica", afirma.

Para o empresário, o segredo está em associar as inovações dos processos à gestão. "O Brasil tem aptidão de produção primária, então temos que transformar isso, agregar valor à matéria-prima por meio da biotecnologia, genoma, bioinformática. É isso que a Simbios faz", defende.

Da microempresa do interior do Rio Grande do Sul para uma grande incorporadora mineira, o empreendedorismo tecnológico depende da vontade do empresário. Flávio Vidal, gestor executivo de Inovação da MRV Engenharia, explica que, mesmo no setor de construção civil, que ainda é muito artesanal, é possível inovar. "A MRV tem veia inovadora. Como somos a maior companhia da América Latina temos que puxar o segmento a fazer coisas novas, a sair do artesanal. Assumimos esse protagonismo como nossa responsabilidade", diz.

A companhia adotou tecnologias disruptivas em vários processos, desde a digitalização dos projetos, a montagens de paredes mais rápidas, estratégias de vendas ágeis e empreendimentos sustentáveis. "O tamanho da empresa, presente em 145 cidades de 22 estados, com 300 mil clientes, nos obriga a ser inovadores", ressalta Vidal. Todas as áreas da empresa, desde vendas, busca de terrenos, crédito imobiliário, têm liberdade para criar dentro de alguns parâmetros, como redução de custo, produtividade, melhoria de processo, atendimento ao cliente.

"Os exemplos estão nos nossos empreendimentos, todos com energia fotovoltaica, tomadas USB, internet Wi-Fi nas áreas comuns, aproveitamento de água. Nós acompanhamos as megatendências e nos ajustamos", assinala. Para preparar a mão de obra, a companhia criou mais de 170 escolas nos canteiros de obras para promover a inclusão digital e ensinar as novas técnicas.


Fonte: Correio Braziliense 

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